Kobe Bryant. O último capítulo da lenda

Estrela dos LA Lakers despediu-se a 13 de abril de 2016 com uma exibição memorável em que marcou 60 pontos no triunfo sobre os Utah Jazz. Para trás, ficou uma carreira brilhante com cinco títulos e muitas noites de deixar a boca aberta (sem ser de sono). Agora será alvo de uma derradeira homenagem: o Staples Center vai pendurar os números com que Kobe fez história (8 e 24).

 

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Uma noite que não se esquece

 

Quarta-feira, 13 de abril de 2016. O mundo do desporto tinha os olhos postos na Califórnia. No norte, em Oakland, os Golden State Warriors iam fixar um novo recorde de vitórias numa fase regular (73). Mais a sul, em Los Angeles, Kobe Bryant ia colocar um ponto final na sua carreira como jogador.

 

Nós estávamos lá. Com bilhetes comprados em outubro, um mês e meio antes de Kobe Bryant anunciar oficialmente que 2015/16 seria a sua última temporada, e depois de uma autêntica maratona para assegurar o levantamento dos bilhetes em Los Angeles, fomos mais testemunhas do que espetadores. Sim, porque Kobe Bryant não fez apenas um jogo. Deu uma prova de grandeza à qual ninguém conseguiu ser indiferente.

 

Os parágrafos que se seguem são uma mistura dos vários textos que se escreveram na altura, ainda a quente, depois de tudo o que se tinha passado. Porque por mais que as memórias resistam fortes no cérebro, não há nada melhor do que reviver a emoção e a sensação de estupefação sentida no momento.

 

Um predador competitivo

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Kobe Bryant, o fim. Dito assim, de forma crua, parece retirar-lhe o que construiu durante vinte anos de carreira ao mais alto nível, sempre ao serviço da mesma equipa – cada vez mais uma raridade.

 

Num desporto de enorme exigência, Kobe Bryant não se limitou a ser um atleta de elite. Foi um predador, um animal competitivo que cheirava as presas como se estivesse numa selva sem ser alvo de atenções. Mas não estava. Desde os 17 anos, idade com que foi escolhido pelos Charlotte Hornets (depois de os LA Lakers lhes terem segredado o nome ao ouvido apenas alguns minutos antes do momento da verdade), Kobe sempre foi uma estrela. Amado por uns, odiado por outros, angariou milhões de testemunhas.

 

Até agora, 13 de abril. Foi o último dia. O dia em que uma carreira repleta de altos e baixos (em que os primeiros serão sempre mais memoráveis) chegou ao… fim. O dia em que a estação de metro do Pico, a escassos metros da entrada Sul do Staples Center foi rebatizada com o seu nome – apenas por 24 horas. O dia em que os rivais baixaram as defesas e reconheceram a qualidade inexcedível de um talento incomparável na NBA.

 

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E o dia em que bilhetes comprados a 71,50 dólares a 15 de outubro chegaram a valer mais de 900 no mercado autorizado de revenda. Não foi um tiro no escuro mas uma antecipação do que se especulava e que se confirmou no final de novembro: Kobe Bryant ia acabar a carreira em abril de 2016.

 

O predador envelhecera. Os olhos que fitavam o cesto com uma vontade obsessiva de triunfar cansaram-se. E o grupo, em seu redor, tornou-se fraco. Onde noutros tempos houve Shaquille O’Neal, Pau Gasol ou Lamar Odom, há agora a juventude de Jordan Clarkson, D’Angelo Russell e Julius Randle. Só que para já não passam disso, promessas.

 

Mais do que um último jogo, tratava-se de uma despedida. Da última oportunidade que todos, adeptos dos Lakers ou não, teriam de reviver tudo o que Kobe alcançou desde 1996, com destaque para os cinco títulos de campeão – o último em 2010.

 

Quatro horas antes do arranque, já a praça central junto ao Staples Center estava apinhada. Os adeptos não se intimidaram na hora da homenagem e trouxeram o que podiam: camisolas de Bryant com os números 8 e 24 (os dois que utilizou pelos Lakers) mas também com o 33, da Lower Merion, escola secundária de onde saiu para a NBA.

 

E quem não tivesse aparecido vestido a rigor, também não havia problema. Para os vendedores ambulantes esta foi uma oportunidade de ouro, com t-shirts à medida da despedida e algumas das fotografias marcantes da carreira.

 

O Staples Center também se engalanou. Não esteve pronto tão cedo mas aos poucos forrou as suas paredes exteriores com imagens de Kobe Bryant e a inscrição #ThankYouKobe. De resto, muitos balões, insufláveis e entretenimento infindável para ajudar a passar as horas. Ou mesmo a passagem de Snoop Dogg, com a sua enorme comitiva, a gerar a euforia dos que esperavam.

 

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Noite kobecêntrica

 

Já lá dentro, depois de uma hora na fila, não havia dúvidas sobre o protagonista da noite. Logo na porta, uma chuva de ofertas, com destaque para um livro com os melhores momentos e imagens da carreira de Kobe. Depois, na cadeira, uma t-shirt dedicada ao #mambaday.

 

O court também estava equipado a preceito. De um lado, o número 24, do outro o 8. Enquanto o tempo passava, o ecrã gigante mostrava vídeos da carreira.

 

As cheerleaders não tiveram folga mas não esteve longe disso. A cada pausa, o entretenimento era outro e o ecrã gigante só passava testemunhos sobre Kobe. Primeiro de antigos colegas, depois de rivais, passando por estrelas de outras modalidades como David Beckham e Novak Djokovic e figuras do cinema norte-americano com destaque para Jack Nicholson.

Os preparos da festa foram tão cuidadosos que Kobe Bryant não quis desiludir ninguém. Até porque antes do jogo fora anunciado por Magic Johnson como o melhor jogador dos Lakers da história. Mas o começo foi tremido. Falhou lançamentos e pareceu acusar uma pressão que venceu tantas vezes na carreira.

 

Um desarme de lançamento foi a faísca que faltava para incendiar a multidão do Staples Center e o próprio Kobe Bryant. As duas horas que se seguiram entraram na história. Há a forma crua de ver as coisas – Kobe tentou 50 lançamentos de campo e teve literalmente a equipa a jogar para si – mas a que entra na memória é a romântica. A de um jogador que se despediu depois de vinte anos com 60 pontos. E com uma vitória. Graças a ele, claro. E à forma como liderou o jogo nos minutos finais.

 

Sentimento de pequenez

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Há momentos na vida em que nos sentimos pequenos comparados com o que estamos a ver. Momentos que nos tiram o fôlego, que fazem com que tenhamos dificuldade para reconhecer em direto, naquele segundo, a dimensão precisa do que nos aparece à frente.

 

No caso da despedida de Kobe Bryant, o estado de transe demorou horas. Por si só, o último jogo da carreira seria especial mas o jogador conseguiu elevar o patamar em vários níveis. Como se nos sussurrasse ao ouvido “vocês achavam que ia ser bom? Pois eu garanto-vos que será ainda melhor”.

 

Basta pensar que este texto está a ser escrito 12 horas depois do arranque e o tempo de sono continua a escassear. Por mais que tente, a sensação de ter sido testemunha de algo único é transcendente, invade-nos o estado de espírito e faz-nos voltar a cada momento de uma noite inesquecível.

 

De quando achámos que poderia não ser assim tão bom quando falhou vários lançamentos a abrir, de quando começámos a fazer contas sobre que patamar pontual conseguiria alcançar. De quando torcemos para chegar aos 50 pontos sem sequer ter a noção de que ia a caminho dos 60.

 

Kobe Bryant fez isso. Deixou-nos pregados ao chão, mas de pé. Com as pernas a tremer mas de pé. No primeiro, no segundo e no terceiro andar do Staples Center. Revendo os vídeos feitos, é impossível não reparar de que quando Kobe converteu o lance livre que lhe deu os 60 pontos, todo o pavilhão estava de pé.

 

Faixa escondida num álbum mítico

 

Quando Kobe Bryant partiu para os minutos finais do jogo de despedida, a noite já era especial, mas o que se seguiu serviu quase como uma faixa escondida no final de um dos melhores álbuns de sempre.

 

E ouvi-la, ao vivo, sem perceber até onde iria ou quando acabaria a canção, é indescritível. É de levar as mãos à cabeça, olhar em volta e perceber que todos têm a mesma pergunta na mente: “Mas como é que isto é possível?” Na noite de 13 de abril não fui jornalista, não fui adepto dos Celtics, não fui espectador. Fui testemunha. Misturado com tantos outros que tiveram a mesma sorte. Sim, porque para nós aquelas duas horas e meia foram uma questão de sorte.

 

Quando não estava em campo, perdia interesse. Poucos eram os que queriam saber e só mesmo a perspetiva de regressar ao court alimentava a esperança. Cedo os 10 pontos se transformaram em 20. E os 20 em 30. E os 30 em 40. Aí, já no último período, todos pensámos que ia aos 50. A partir dos 47, a 3’05” do final, tornou-se impossível ficar sentado. Era como se no fundo todos soubéssemos e sentíssemos que a história estava ao virar da esquina e ninguém a queria perder. Com uma diferença: estávamos muito enganados quando pensávamos que a marca redonda seriam os 50. Kobe, o humano genial, transformou-se em Kobe, o extraterrestre sobredotado.

 

Uma exibição deve ter altos e baixos mas Kobe afundou a lógica e aumentou o patamar de euforia incrédula a cada intervenção. Era Mamba, era Rei Midas, era Kobe, um adolescente da Pensilvânia com o sonho de ser o melhor Laker da história. E de cada vez que segurava a bola com as duas mãos a caminho do cesto, só me restava levar as minhas à cabeça, em estado de assoberbamento total.

 

Ainda é difícil perceber o que aconteceu. E acreditar que aconteceu. Kobe transformou uma noite que já era especial numa impossível de esquecer. Não voltou a falhar um lançamento e fechou a contagem com 60 pontos. Mas não foi só isso: sozinho deu mais uma vitória, pela última vez, aos Lakers. Sem pressão? Pelo contrário. O que acham que significa ir para a linha de lance livre a 15 segundos do fim com a possibilidade de chegar aos 60 pontos?

 

Ao contrário de mim e de todos os outros na bancada, Kobe não tremeu. Não podia tremer. Porque Kobe não é deste mundo, é de um outro, um especial. Nós só passamos por aqui, somos apenas testemunhas. Ele é eterno.



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